quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Você se acha mal informada (o)?


 
No dia de hoje a indignação com a realidade brasileira está totalmente tomando conta do Blog do Tear.
Uma das coisas que nos preocupa é fato da maioria das pessoas não estar bem informada sobre a realidade objetiva do Brasil. 
De onde você consegue a informação? Você acha que é mal informado (a)?
Para um de nossos membros o rádio continua sendo o seu principal meio de comunicação. Para ele, as emissoras de rádio tem uma diversidade enorme de programação e isso o contempla. Inclusive, ele dispõe de um equipamento que consegue sintonizar rádios de outras cidades, estados e até internacionais. Ele prefere os programas jornalísticos e de debate político. Para ele a maioria da população brasileira é mal informada. Um exemplo disso é o fato de nós brasileiros estarmos sofrendo inúmeros cortes, reformas e mudanças que o atual governo brasileiro, do presidente Michel Temer, está fazendo na previdência social, na área trabalhista, na saúde pública, na educação, entre entre outras áreas, que estão sendo extremamente prejudiciais para a classe trabalhadora brasileira e quase não temos visto protestos por parte da população.
Grande parte das pessoas fica sabendo dos fatos sociais e políticos do nosso país por informações dadas por outras pessoas. Entendemos que ao mesmo tempo que é importante para saber das coisas que acontecem na comunidade, nessas situações ficamos a mercê da versão fornecida pelos nossos interlocutores que, em algumas situações, pode estar equivocada. Uma das nossas participantes contou uma situação vivida por um familiar que presta serviço para um aplicativo de transportes privado que a maioria das pessoas acha uma "maravilha" e que, na realidade, segundo ela estabelece relações extremamente precárias de trabalho com seus prestadores de serviço e quase ninguém sabe disso.
A internet e as redes sociais atualmente se tornaram um grande veículo de comunicação muitas pessoas hoje ficam sabendo das coisas e compartilham informações por elas. Mas, temos que pensar em usar de forma responsável, pois, ao mesmo tempo que agilizaram o envio das informações elas também são responsáveis pela retransmissão e ampliação de boatos e notícias mentirosas. Por isso é muito importante checar as informações que a gente recebe pela internet, em nossos perfis e grupos nas redes sociais. Um exemplo da eficiência da internet e redes sociais são o grande número de encontros e atividades que são organizadas por elas e as denúncias dos diferentes tipos de golpe que a população brasileira é vítima. Hoje em dia também encontramos Blogs e Canais, como o Blog do Tear, tratando de diferentes assuntos e com temas da atualidade.
Pra gente, mentira tem perna curta! E, portanto, logo logo informações falsas ou mentirosas são desvendadas. Por isso se informe!
Apesar de estar ocupando um lugar cada vez menos representativo na vida dos brasileiros a televisão, segundo a nossa equipe, ainda é o meio de comunicação mais influente para nossa população. A televisão continuam na casa da maioria dos brasileiros e por muitas vezes é o único meio de informação das pessoas. Achamos importante não acreditar em tudo que passa na televisão e também buscar uma segunda opinião sobre o que é noticiado nos telejornais.

Segue abaixo 2 links para quem tiver interesse:

Música "Zé do Caroço" (Compositora Leci Brandão) - versão Mariana Aydar & Leci Brandão
https://www.youtube.com/watch?v=DvZxNqE5gOI

Greg News - Por Gregório Duvivier (In HBO)
https://www.youtube.com/watch?v=2jEPYYCK2is








VIII Prêmio Arthur Bispo do Rosário

O Conselho Regional de Psicologia do Estado de São Paulo (CRP-SP), está promovendo o VIII Prêmio Arthur Bispo do Rosário em homenagem ao Grande artista brasileira Arthur Bispo do Rosário.
Arthur Bispo do Rosário era sergipano, mas viveu a maior parte da vida no Rio de Janeiro e especificamente passou mais de 50 de sua vida internado em manicômios, Hospital Pedro II e principalmente a Colônia Juliano Moreira. Arthur, inclusive nunca mais voltou a viver em liberdade, até o final da vida viveu em Hospital Psiquiátrico.
Bispo, encontrou dentro da internação a arte. Começou a produzir obras de arte a partir de materiais recicláveis, sucata, restos de panos, cobertores e tecidos.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

As diferenças de ideias e interpretações


Muitas vezes as diferentes interpretações das pessoas geram conflitos. Às vezes do próprio paciente, às vezes dos profissionais de saúde. Nem sempre conseguimos dizer aquilo que sentimos ou pensamos de uma maneira que os outros possam entender. Por vezes, os profissionais de saúde também dizem coisas que nos fazem sentir ofendidos. Um profissional precisa ter o cuidado e o respeito redobrados para que não gere mais conflitos e mal entendidos.
Devemos lembrar que não podemos generalizar todos os profissionais de saúde, nem todos são despreparados. Lembramos também que os profissionais são pessoas e estão sujeitos a erro. Os profissionais, como os pacientes, tem dias ruins. Separar essas coisas é difícil, mas é um exercício necessário.
Temos que levar em conta o lado afetivo, relacionamentos e o psicológico de cada pessoa. É importante poder pensar, refletir para não tomar ações erradas. Há, porém, algumas coisas que não tem justificativa: preconceito, negligência e expor os pacientes.


quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Um aprendizado com a trajetória de Toninha


Hoje entrevistamos a funcionária Maria Antônia, "Toninha", em sua última semana de trabalho aqui no Tear das Artes, depois de 11 anos conosco. Toninha é uma das funcionárias com mais tempo de casa, aqui no Tear das Artes. Toninha é um patrimônio imaterial da rede de Saúde Mental de Campinas.

Blog do Tear - Como é a experiência de se aposentar?

Toninha - Foi muito difícil quando decidi sair do Tear. Há 11 anos eu trabalho aqui. Então se aposentar tinha dois lados, um lado bom e um lado mais difícil. Eu passei mais tempo aqui do que em casa, muitos dias.
As pessoas que trabalham aqui são muito especiais, me acolheram muito, e eu acolhi também novos que chegaram. A troca entre nós foi muito importante: ensinei mas aprendi muito com a equipe. O Rodrigo, temos uma história já de longa data. Me acolheu muito bem.
Com o passar dos dias, essa dor foi diminuindo, e eu fui pensando: "meu dever foi cumprido. São outros ciclos... Agora é ver a família, conversar com os vizinhos, que quase nunca tenho tempo. Agora estou alegre, sabendo que eu fiz meu melhor aqui.
 Espero que Deus me ajude a concretizar outras coisas. Não tenho muitas pretensões, mas viver outras coisas que a vida pode oferecer.
 
Blog do Tear - Você fez um trabalho brilhante. Mas dedicar a vida só à família, é delicado.

Toninha - Acho que para os homens é mais complicado. Depois que eles se aposentam, na nossa sociedade, não tem muito o que fazerem. As mulheres, nunca param. Tem a família, a casa, outras coisas para cuidar. Tenho um vizinho, por exemplo, que varre a frente das casas na rua. É só um exemplo, mas ele diz que isso é a rotina dele e organiza o dia a dia.


Blog do Tear - Hoje tem também muitas possibilidades de programas para a terceira idade.

Toninha - Também acho. O que não dá é a gente se acomodar muito. Meus filhos, por exemplo, não moram perto. Quem mora comigo é minha mãe.

Blog do Tear - Às vezes as famílias colocam a avó para cuidar dos filhos, ajudar na casa. Ou seja, tem muitas avós que só cuidam dos netos.

Toninha - Eu concordo. Isso acontece bastante, muitas colegas que eu converso falam isso. Acho que isso não pode virar rotina. Eu fui muito ativa para que meus filhos fizessem suas famílias, e vivessem suas vidas.


Blog do Tear - Toninha, a gente percebe que você sempre trata todos os usuários com muito respeito e tranquilidade. Como foi vir trabalhar em um serviço da saúde mental?

Toninha - Minha chegada aqui foi uma surpresa. Eu quando cheguei aqui tratei as pessoas sem barreiras, sem ver doença nem nada, assim que eu tratei os usuários. Eu não sabia que as pessoas tinham problemas de saúde, então acho que isso ajudou muito. Uma vez eu estava lavando alguns panos lá fora, e um usuário chegou e me disse "Você sabe que eu já morei nos Estados Unidos? Eu jogava no Yankees (time de futebol americano). E eu tive alguns problemas na perna, e ganhei muito dinheiro." Eu fui mais ouvindo, do que falando qualquer coisa. E eu tinha morado seis anos nos Estados Unidos. Então, mais tarde, vim almoçar e comentei isso com a coordenadora do Tear na época. Ela começou a rir, e disse "Não, Toninha, na verdade não tem nada disso." Então eu sempre ouvi o que me diziam.


Blog do Tear - Toninha, tem uma dimensão sua, a da Maria Antônia, que aparece mais para as pessoas que tem mais amizade com você. Você é uma pessoa polivalente, que faz muitas coisas. Como você começou com as Práticas Integrativas?

Toninha - Quando eu cheguei no Tear, a coordenadora me deu algumas oportunidades. Eu entrei para limpar e cuidar do Tear, como zeladora. Eu não gosto da mesmice, se eu posso fazer outras coisas, eu vou querer. Então comecei na culinária, ajudando, me integrei bastante na cozinha. Por 3 anos eu era responsável por limpar a cozinha. Era a primeira tarefa do dia: eu limpava tudo, panos, fogão, etc... Os meninos da cozinha chegavam e já estava tudo limpo. Um dia me disseram "A cozinha não é serviço seu." Quem devia limpar a cozinha, era o próprio grupo de culinária, que já fazia os pastéis.


Um tempo depois, chega o Rodrigo. Ele me convida para fazer o alongamento. A princípio eu neguei, mas peguei muito gosto pela atividade. Me divertia muito, e não queria parar de fazer. Isso foi crescendo, bastante gente vinha. O Rodrigo, um dia, me disse que ia sair do Tear das Artes, e iria para outro cargo. Eu fiquei muito triste, pela saída dele e pelo fim do grupo. E então ele me disse "Não, vai continuar. Você pode continuar com a ginástica, conduzindo!" E eu continuei... Minha relação com essas pessoas era muito boa, gosto muito das pessoas mais idosas. Eu mantinha um livro, com o nome das pessoas e os telefones. Um dia eu contei, e eram mais de 200 pessoas, que já tinham frequentado a ginástica. Isso foi antes de fazermos ali no shopping, era aqui mesmo no Tear.

Quando o Tear foi assumido pela Prefeitura, a nova coordenadora me disse que essas atividades e outras que eu fazia, eram disfunção, em relação ao cargo que eu fui contratada. Foi uma pena. Eu entendi que eu não poderia fazer algumas atividades, mas foi muito doloroso. Até hoje as senhoras lembram desse grupo.

Blog do Tear - Você também conheceu o Prefeito Toninho, se puder nos contar um pouco.

Toninha - Eu trabalhei como copeira no gabinete do Prefeito, na Prefeitura de Campinas. Peguei a administração do Francisco Amaral e do Toninho. O Toninho era uma pessoa muito especial. Me tratava muito bem. Chegava primeiro o guarda, depois eu, e depois o Prefeito, de terno e tênis. Tenho muitas histórias dele. No último gabinete ele deixava a porta aberta.
Quando eu disse que iria embora para os Estados Unidos, ele me fez uma carta, assinada, para me ajudar a conseguir emprego.

Blog do Tear - Você passou um tempo no estrangeiro. Você pode nos contar disso, e da sua volta?

Toninha - Eu fui para os Estados Unidos em um momento difícil da vida, durante minha separação. Minha irmã morava lá, e eu acabei indo.  O Toninho morreu no dia 11 de Setembro, no dia também que aconteceu o ataque às Torres Gêmeas. Foi um momento difícil: a tristeza no Brasil e também nos Estados Unidos.

Eu fiquei lá 3 meses desempregada, porque eu não falava inglês. Um dia saiu um anúncio no jornal que precisavam de uma empregada doméstica que falasse português. O casal era um homem estadounidense, judeu, e uma mulher nascida em Portugal. Os pais dela eram portugueses, e ela gostaria que os filhos aprendessem português, por isso fizeram o anúncio. Quando eu vi a casa, já quis voltar. Eu olhei e já pensei "Não vou dar conta...". Mas tinham outros funcionários. Fiquei 6 anos lá. Mas meu pai adoeceu e eu quis voltar.

A volta, com certeza, foi muito melhor que a ida. Reencontrar o país, a família, etc... Na semana seguinte que eu voltei, já comecei a trabalhar de diarista. Meu antigo chefe me ligou, um ano depois que eu voltei, dizendo que havia uma vaga no "Tear das Artes". E foi assim que eu cheguei aqui.

Blog do Tear - Toninha, você fará muita falta aqui no Tear. Obrigado pelo seu tempo e sua colaboração.

                                                                         (Toninha)




                                                 (Equipe do Blog do Tear com Toninha)




quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Entrevista Com a Residente Jéssica

Hoje vamos entrevistar a Residente Jéssica Bussioli, do programa de Saúde do Adulto e Idoso da UNICAMP. Jéssica participou conosco nos encontros do Grupo do Blog do Tear durante o primeiro semestre do ano.

Blog do Tear - Vocês não são concursados? 

Jéssica - Não, os residentes são como "concursados temporários". Passamos por um processo seletivo para ingressar na residência, mas não somos profissionais da Prefeitura. Discutimos com nossos tutores as atividades que iremos participar. O blog era uma das atividades que queríamos conhecer.

Blog do Tear - Jéssica, o que você aprendeu durante esses seis meses de residência? Qual foi a mudança no seu modo de ver e compreender a prática em saúde?

Jéssica - Eu gosto muito da Atenção Básica. Para mim faz mais sentido cuidar da pessoa ao longo da sua vida. Prefiro do que cuidar apenas quando está doente. Eu fiz estágio na Atenção Primária, mas era menos tempo. Em um mês de Residência eu fiz o equivalente a todas as horas de estágio na Atenção Primária, durante a graduação.
O que foi mais interessante, é poder ver "concretamente" tudo o que eu lia nos livros e cartilhas. Por exemplo, a questão do vínculo. Estando lá tanto tempo, começo a perceber o que é vincular-se com os usuários. Por isso era tão importante para mim me despedir de vocês.

Blog do Tear - Você é enfermeira. Lida com as pessoas, com o povo. Qual seu ponto de vista em relação à situação da população atendida pelo Centro de Saúde Vista Alegre, onde você trabalha?

Jéssica -  O serviço de saúde, o Centro de Saúde ou UBS, é "porta aberta". Ou seja, qualquer um pode acessar. Porém, muitas vezes, as pessoas chegam com queixas que vão além do meu saber técnico como enfermeira, por exemplo. Uma pessoa que está sem ter o que comer, ou sem moradia, ultrapassa meu conhecimento técnico como enfermeira. Contudo, são queixas de saúde, demandas que não necessariamente eu poderei resolver. Mas é minha responsabilidade dar encaminhamento a essas queixas. Não é porque não se trata de um curativo ou consulta médica que eu não posso ajudar.
Vejo também que o Centro de Saúde se "protege" de tanta demanda, tornando o acesso um pouco mais burocrático.
Muitas das questões que aparecem, pedem uma escuta e uma conversa. Nem tudo é resolvido com as ações mais "clássicas" em saúde, como o cuidado do corpo, por exemplo, cuidado com a doença, e não com a pessoa.
Por isso eu gosto muito desse espaço do Blog.

Blog do Tear (Oswaldo) - Eu trabalho assim também. Um pensador, com raciocínios. Eu gosto de escrever e pensar sobre as relações humanas. Não podemos ignorar uma ferida, de alguém que se foi, de uma mágoa...Vocês pensam como eu, então? É assim que vocês trabalham?

Jéssica - Sim, Oswaldo. Mas nem todos pensam que nem nós. Fingir que não existe, uma ferida "que a gente não enxerga", como a perda de alguém querido, é tão grave quando fingir que uma ferida na perna não existe.

Blog do Tear (Rivaldo) - A gente sempre fala de coração machucado, mas na verdade é o cérebro né? O coração não é capaz de sentir ou processar emoções. É no cérebro.  Agora, algumas pessoas vem e dizem uma coisa, mas na verdade o problema é outro. 

Jéssica - Sim, isso acontece. Em qualquer relação humana, quando falamos uma coisa, nem sempre a pessoa entende aquilo que quisemos dizer. Tem um monte de fatores envolvidos nisso. A compreensão da pessoa, as palavras que eu usei quando disse minha mensagem.

Blog do Tear - Mas isso se resolve com capacitação dos profissionais, não?

Jéssica - Olha, também. Mas a comunicação sempre está sujeita a "falhas". É uma coisa da própria relação humana, que vai além da relação entre paciente-profissional de saúde. 

Blog do Tear - Os profissionais por vezes são muito despreparados. 

Blog do Tear (Rivaldo) - Sim, mas na realidade cada lugar tem um tempo. A terceirização, a pressão pela produção, pode ocasionar erros. E onde você trabalha, no Centro de Saúde, não tem nada a ver com produção. Isso é na fábrica. 

Jéssica - Eu concordo! Infelizmente, apesar da Prefeitura não ser uma empresa, também tem grandes cobranças de produção (atendimentos, ações de saúde, etc...) Mas falta o recurso e o dimensionamento adequado para dar conta de toda a demanda, da maneira que eu gostaria.

Blog do Tear - Jéssica, você tem tatuagem?

Jéssica - Agora estamos falando de outros assuntos!

Blog do Tear (Nilton) - Tem um projeto de Lei para acabar com a estabilidade dos servidores públicos concursados. Eu sou completamente a favor disso. Porque muita gente que passa em concurso trabalha mal, falta...É complicado. E os bons profissionais sofrem por isso. Tem muito um pensamento de "Eu já garanti o meu, agora que se exploda."

Jéssica - Esse é um tema complicado. E também as pessoas se mobilizam pouco. Muitas pessoas são coniventes com profissionais ruins. É a mesma coisa que a situação política do país. Sabemos de muitas coisas erradas que acontecem, mas nos mobilizamos muito pouco. Precisamos cobrar e estar atentos!

Blog do Tear - As pessoas cuidam mal também dos materiais e dos serviços públicos. A população é um pouco cúmplice disso ai.

Jéssica - É difícil. Nosso senso de coletividade, no Brasil, é complicado. Como vocês disseram, tem essa ideia de "garantir o meu". A noção de público é muito frágil aqui no nosso país.

Blog do Tear - O que também prejudica os serviços é o corporativismo. Ou seja, alguém da equipe faz coisas erradas, e os outros passam a mão na cabeça. Médico que chega atrasado, porque tem atendimento particular. Todos sabem, mas ninguém fala nada.

Jéssica - Sim, e tudo isso esbarra no nosso trabalho. Trabalhar na Atenção Primária é trabalhar com a coletividade, então tudo impacta no nosso dia a dia.

Blog do Tear - Como é trabalhar com essas questões que não são especificamente do núcleo da enfermagem, como a escuta e o acolhimento?

Jéssica - Nós temos algumas formação para compreender e escutar os pacientes. A psicologia tem isso mais direcionado. Mas na realidade todo profissional de saúde tem a obrigação de escutar os pacientes. Não só ouvir, deixar entrar no ouvido. Agora, quando eu percebo que não tenho mais ferramentas suficientes, para algum caso, eu acesso outros profissionais da equipe, como a Equipe de Saúde Mental, para um apoio e avaliação.

Blog do Tear - Você sente alguma dificuldade por ter essa escuta mais humanizada, sendo enfermeira? É muito importante que nós, profissionais, seres humanos, estejam abertos para aprender outras coisas, e trabalhar de um modo que não seja aquele "clássico" dentro das profissões. Como é isso para vocês?

Jéssica - Sim, bastante. A minha profissão abrange vários espaços de cuidado. No Centro de Saúde estamos em todos os lugares (a enfermagem). Para algumas questões tem protocolos bem definidos: como para algumas doenças (tuberculose, sífilis) e algumas condições (como a gestação).

Por vezes somos cobrados para ter uma postura simplesmente técnica. Por exemplo, aplicar uma medicação. Se procuro saber quem é, para que está sendo medicada, conversar com a pessoa, alguns profissionais estranham. Pensam que pode ser perda de tempo. Isso pode ser devido à especialização da saúde, ou seja, cada questão específica é encaminhada para um profissional ou especialidade específica.
Mas esse não é um tempo perdido. Muitas outras coisas podem aparecer se nos disponibilizarmos a escutar e não ouvir. A noção da produtividade é muito forte.

Blog do Tear - E como foi a experiência de estar aqui no Blog Do Tear com a gente?

Jéssica - Eu gostei bastante. Por isso fiz questão de me despedir de vocês oficialmente. O que eu gostei mesmo é que vocês discutem os temas que aparecem, e são temas polêmicos. O que chama minha atenção é que vocês se respeitam muito, apesar das opiniões bastante divergentes. Penso que isso é um espaço que pode criar, como conversávamos antes, esse senso de coletividade que está em falta no nosso país.
Expor as opiniões, escutar a diferença, nos faz aprender, ser mais tolerantes e respeitosos. Acompanhei pouco, mas vocês já estão aqui há muito tempo, e mal posso imaginar o quanto já construíram e cresceram com isso.
Para mim, isso tem tudo a ver com saúde. Uma saúde mais ampla, que produz. Eu gostei muito!

Blog do Tear - Nós também gostamos muito, Jéssica. Desejamos a você sorte no Centro de Saúde. Agradecemos sua presença.

Blog do Tear (Sr. Alcino) - Muito obrigado. Você trabalha perto de casa, quem sabe eu não consigo te encontrar lá no Centro de Saúde!

Blog do Tear (Giovane) - Você continua no Centro de Saúde? Eu vou lá sempre te ver. Se puder, venha nos visitar.

 

                                        (Jéssica, em primeiro plano, com o Grupo do Blog)

 

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Combinados na Convivência Familiar Cotidiana

Hoje o Grupo do Blog do Tear discutiu os combinados e os contratos que organizam nossa convivência em família, no nosso dia a dia.

Dividir as tarefas domésticas, compartilhar os cuidados com a casa e fazer acordos que facilitam a convivência, são arranjos necessários.

Conviver com o outros é sempre delicado, e estipular limites, contratos e acordos são sempre necessários. Alguns usuários dizem que quando estão em crise ou não se sentem bem, fica mais difícil para dar conta das tarefas familiares, domésticas e cotidianas.

Todos os integrantes contaram de seus acordos na família: dividir as louças, levar o lixo para fora, etc... Alguns disseram que recebem outras coisas em troca de compartilhar as tarefas: os mais jovens recebem uma "mesada", outros preferem uma comida de seu gosto, etc...

Um dos integrantes nos conta do esquema de "metas", como algo que organiza o dia a dia. Ou seja, "trocas" e acordos com os integrantes da família.

Compartilhar as tarefas do dia a dia facilitam a convivência com os familiares e também são importantes para estabelecer uma rotina, o que é importante para nos sentirmos melhores, mais produtivos e ter o sentimento de contribuir com nossos familiares.


quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Blog do Tear Entrevista: Psicólogo Bruno

Hoje continuaremos nossa sequência de entrevistas e elegemos um dos nossos membros que recentemente teve uma experiência internacional. O Bruno, psicólogo e residente do programa de residência em saúde mental da UNICAMP, que no mês de agosto fez estágio de 1 mês na Argentina, na cidade de Rosário.

Blog do Tear (BT): Bruno, você esteve na Argentina e queria saber se você foi para um serviço específico ou para a rede de saúde no geral? 

Bruno (B): Fui inicialmente para visitar os serviços da atenção básica de saúde e terminei por visitar muito mais serviços que planejei. Visitei na maior parte serviços de saúde mental, mas também outros serviços da rede saúde de Rosário. Ao todo fui em uns 15 serviços.

BT: Com relação ao transporte você andou muito de carro, de Escort Argentino? Ou usou outro meio de transporte?

B: Diferentemente de Campinas, o transporte público em Rosário funciona muito bem e não é caro. Enquanto pagamos aqui R$ 4,50 lá o ônibus custa 10 pesos (Que vale R$ 2,00). A maioria das pessoas usa ônibus e o transporte é de boa qualidade. Normalmente não é necessário ficar trocando de ônibus para ir de lugar ao outro.

BT: Mas a cidade é pequena lá? 

B: Não é não tem aproximadamente 1 milhão e 500 mil pessoas em Rosário. É a terceira maior cidade da Argentina.

BT: Como você foi até lá?

B: Fui de avião, apesar de querer ir de carro porque a viagem é muito bonita, tive que ir assim porque ia ser muito caro viajar em carro. A distância é mais ou menos 1700 kilometros. O interessante é que apesar da distância parecer longe é quase a mesma distância entre a cidade São Paulo (SP) e Salvador na Bahia.

BT: Como são os serviços públicos lá? Tem Sistema Único de Saúde (SUS)?

B: Lá na Argentina, infelizmente não tem SUS, eles não tem um sistema nacional de saúde. A população argentina vive o que vivíamos no Brasil nos anos 80, por exemplo. Quem tem acesso ao atendimento de saúde gratuito são as pessoas que tem carteira assinada. E, assim, somente aqueles que tem dinheiro para pagar é quem atendimento gratuito garantido pelo estado de forma nacional. Mas, Rosário, é uma exceção a essa regra porque lá há aproximadamente 20 anos devido ao governo da província de Santa Fé (Estado onde fica a cidade de Rosário) que assumiu a responsabilidade de prover atendimento gratuito a população e estrutura um sistema de saúde provincial que funciona para atender a população da região de Santa Fé.

BT: Nossa isso é impensável né?

B: Sim, é triste, mas essa é a realidade deles Rosário é uma exceção o sistema de lá não funciona para todo o país. E acho que a gente tem que ter isso em mente porque vemos hoje as ameaças que o SUS sofre e temos que defendê-lo, pois, se não ficarmos atentos ele pode ser tirado de nós novamente.

BT: E como é o atendimento em saúde mental? Ainda tem hospital psiquiátrico?

B: Olha gente, vi coisas problemáticas lá. Lá ainda existem muitos hospitais psiquiátricos. Visitei 2 hospitais um em Rosário com capacidade para internação de até 70 pessoas e outro na zona rural próxima a cidade de Rosário ainda maior onde haviam 200 pessoas internadas. Foi muito triste ver isso gente, fiquei muito abalado. Já tinha visitado hospitais em São Paulo, quando era estudante de psicologia, mas para mim a experiência que vivi lá foi muito mais chocante. Vi pessoas que estavam internadas há muitos anos e que poderiam estar fazendo seu tratamento em liberdade porque, inclusive, conseguimos fazer isso no Brasil. Vi muitas pessoas nuas perambulando pelo hospital, pessoas nuas amarradas em contenção física e hipermedicadas. O que me impressionou negativamente foi a atitude dos profissionais. A maioria dos profissionais que conheci nos hospitais, defendiam que aqueles usuários internados não teriam condição de fazer tratamento em liberdade e achavam que eles tem que fazer o tratamento internados. E eles estão lá há muitos anos. Ainda tem muito preconceito com o usuário de saúde mental, muita gente lá acham que eles são perigosos e tem que ficar internados.
Os serviços que cuidam de pessoas com uso de Álcool ou Outras Drogas são muito interessantes. Trabalham a partir do paradigma de Redução de Danos e com "Baixo nível de exigência" aos usuários. Ou seja, não se pede muito dos frequentadores. Articulam rede, oferecem aulas e oficinas, bolsas de ofício, dentre outros.


BT: Mas o tratamento em Saúde Mental por lá é só baseado em Manicômios?

B: Não, não só. Eles também tem serviços comunitários como Centros de Saúde, que lá são bem estruturados e outros Serviços de Saúde Mental. Visitei um Centro Cultural (Centro de Convivência) que tinha atividades artísticas e culturais. Era bem interessante. O que me espantou foi a falta de trabalhos mais efetivos na comunidade. A maior parte dos atendimentos é ambulatorial, de consultório e há poucas ações como as de saúde da família e psicossociais como as que temos aqui no Brasil, a partir dos nossos Centros de Saúde e Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).

BT: E sobre Rosário e a Argentina o que você diz?

B: Você sabe que essa fama de que os Argentinos é um povo metido não é verdade. O que os próprios Argentinos dizem é que há uma diferença entre os Portenhos (População de Buenos Aires, a capital) e o restante do país. Em Rosário eles, inclusive, acham que os portenhos são "metidos". O que eu percebi em Rosário é que lá eles são muito solícitos, educados e atenciosos. Nos trataram muito bem e gostavam muito do Brasil, muitas pessoas que moram lá já visitaram o Brasil. A cidade é muito bonita, com construções históricas preservadas e cuidadas. Também achei muito interessante o fato que eles por lá em muitos lugares param o expediente produtivo entre 12h às 16h todo o dia. E lá o que vemos muito são as pessoas nos parques e praças nesses momentos desfrutando a vida. Isso foi muito importante porque me fez refletir sobre o estilo de vida que temos aqui onde quase nunca paramos para aproveitar mais a vida e o trabalho nos ocupa muito tempo. Outra questão que me chamou a atenção foi o fato deles serem muito politizados. Eles diferentemente da maioria dos brasileiros entendem que somos todos parte da América Latina e temos muitos aspectos culturais semelhantes. Eles vivem conflitos parecidos com o Brasil e alternam entre governos de esquerda e direita. Governos que investem mais nas políticas sociais que atendem a população e suas necessidades e outros governos que, como o atual Governo da Argentina, do Macri, e do Brasil, do Temer, que estão mais voltados para interesses particulares e para atender interesses da elite dominante, das empresas ou do mercado capitalista.